Segunda-feira, Março 24, 2008
mamãe que rouba pirulitos!
De repente, aos prantos, o João irrompe o quarto que eu estudo (ou o "quarto do computador", já que isso aqui não merece mais o nome de biblioteca, pois está muito bagunçado!):
- Mamãe!
- O que é, meu filho? A mamãe está estudando, João, vá para a titia, vá.
- Ele quer um pirulito que estava na geladeira. De repente, ele lembrou desse pirulito! - Explica a titia, a Aglaís.
- Ah, eu comi. - Eu respondo.
- Pois agora, ele quer. - Ela retruca.
- Mas tinha só um restinho, bem pequenininho, na geladeira. Aí, eu comi. Vê se ele não se conforma com ovo de páscoa do Batman.
- Está na geladeira?
- Está. Você quer o ovo de páscoa do batman, João?
Ele, meio que se conformando e apenas soluçando:
- Que-quero!
E saem os dois, Aglaís e João, do quarto.
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4:18 PM
Por quanto tempo terei de parar a minha vida, a intervalos periódicos desencadeados pelo meu estresse, para "cuidar da minha saúde", como diz o meu pai? O que devo fazer para sair dessa armadilha que minha mente arma para mim mesma?
Eu digo que faria qualquer coisa para sair disso. Mas, não é verdade. Ainda não me dispus a empreender uma viagem ao fundo de mim mesma, cada vez que me aproximo demais, recuo, volto, pego um desvio, faço um outro caminho, mesmo sabendo que o percurso escolhido não me levará à vitória, mesmo sabendo que posso ir parar em uma vereda que chega em lugar nenhum, me perder pelo meio do caminho, encontrar o lobo mau, qualquer coisa do gênero.
E a mente sabe do meu temor e isso faz parte da sua armadilha.
posted by CLIO ZINHA |
4:12 PM
Segunda-feira, Março 03, 2008
Eu já não sou uma hedonista das drogas, eu já não sou uma hedonista do sexo. Por favor, não me tirem o prazer de ser uma hedonista da música, das narrativas, da leitura.
Quando eu leio, tem que ser demais, tem que ser bastante. Tem que ser sem parar até o final.
Quando eu escrever, tem que ser over, tem que dar acabamento, fechamento, tem que me dar catarse. E algo mais.
Ler e Escrever e Ler são as minhas drogas do momento. E ouvir? Ouvir é o que me acalma e me reconcilia depois de uma overdose. É caminhar calma e sozinha num Parque depois de uma noite louca de entregas.
Principalmente, se for Villa-Lobos. Villa-Lobos é perfeito para o pós das noites de entrega louca à escrita e à leitura. Villa-Lobos é como um cigarro. Só que melhor, bem melhor (não vem com mau hálito, nem câncer e ainda traz sempre a mesma alegria, sempre o mesmo tu tu tu tutututu no cérebro, a cada vez que o escuto. O ouvido não se acostuma jamais a Villa-Lobos, assim como o cérebro se habitua à nicotina. E por isso ele é melhor, muito melhor).
Não me peçam para ser amiga, não me peçam para ser esposa, não me peçam para ser namorada, filha, sobrinha, vizinha, condômina, companheira de religião, nem mesmo aluna. Pois estou de corpo e alma entregue ao frenesi das escritas e leituras. E só posso acabar quando acabar mesmo.
Sei que não é justo. Mas vocês me ajudaram a entrar e a amar essa viagem de corpo e alma, a desejar esse delírio. Agora, não me peçam para parar. Se for necessário, me internem. Mas, não me peçam para parar.
Sei, não é justo. Não é nem mesmo correto. Mas é asim que sou. E ainda não aprendi a ser diferente.
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9:55 AM
Uma vitória
O João não começou essa semana de aulas doente...
E entrou no colégio sem chorar, sem pedir para ir embora e sem se agarrar a nós. Entrou como um aluno de verdade: segurando a lancheira, caminhando sozinho, pronto para começar a aventura mágica de aprender.
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Relendo o texto abaixo, percebi duas coisas:
1) pode ter dado a impressão que eu ia à biblioteca ler na hora do recreio os livros da "Aula de Leitura" para passar na frente dos meus colegas e, de propósito, perturbar a vida das professoras leigas do colégio de freiras. Mas, não era isso. É que, desde antes daquele tempo, eu era uma leitora ávida e, como já disse, hedonista ao extremo. Herdei isso do meu avô (pena não ter herdado também a disciplina que ele sacava do bolso para estudar, quando era necessário, mesmo não sendo um acadêmico, mas apenas um profissional da área de Direito), que me confessou um dia: "Não sei ler literatura por obrigação. Nunca terminei Ulysses, do James Joyce, porque era um livro chato, chatíssimo.". O contato com o texto era de tal maneira estimulante que eu não conseguia me restringir à leitura da aula (apenas uma hora, uma vez por semana). Ficava em frêmito, queria chegar ao final logo, descobrir o que aconteceria com as duas irmãs órfãs e sua amiguinha, a pequena Sofia. Enfim, isso me leva ao segundo ponto de reflexão:
2) Sou muito mais uma leitora de Roland Barthes, que de Chartier. E isso vem nos dois sentidos: sou muito mais a leitora descrita por Barthes, que ama o texto e se relaciona emocionalmente de forma bastante inusitada com ele, que o leitor analisado por Chartier. E gosto mais do primeiro que do segundo, também.
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9:41 AM
Domingo, Março 02, 2008
O Chartier me faz retomar as primeiras aulas de leitura, ministradas pelas tias Lúcia e Dorinha, ainda no Santa Cecília. Ele prova que o que elas me ensinaram ainda tem, sim, muito valor (por mais chatas, amarguradas e pouco didáticas que fossem. Ops, sorry, agora já foi...). Elas ficavam fulas porque eu ia na biblioteca fora da hora da "Aula de Leitura", no intervalo, e lia os livros dessa aula bem rápido, acabando bem antes dos outros e do tempo previsto por elas para gastarmos naquela obra. Daí, me obrigavam a afazer resumo. Que eu não fazia nunca, nunquinha. Elas me diziam que "ler rápido e somente por prazer" não existia. Pelo menos, não para alguém da minha idade.
Naquele tempo, por volta dos meus 10, 11 anos, elas diziam que eu tinha que aprender a ler nos três estágios desse ato: primeiro um contato inicial com o texto, no qual demarcaria as margens de leitura, meu olhar se habituaria àquele livro especificamente, suas fontes (não, elas não usavam esse termo, mas era algo que significava isso), suas palavras mais usuais. Depois, num segundo momento, numa segunda leitura, eu perceberia o estilo, o que me interessava, o que me irritava. Num terceiro momento, aí, sim, eu poderia dizer que me apropriara do texto (ou o havia decorado, né), tomando nota dos sentidos, do estilo, do que não havia entendido, do que havia me chamado atenção.
Sem isso, de acordo com elas, eu nunca aprederia a ler realmente e nunca saberia qual o real significado do texto - para fazer o famigerado resumo. Por isso, os outros alunos ficavam o ano inteiro em "As meninas exemplares". Mas, eu não ficava, não, não tinha essa paciência monástica.
Talvez, por isso e por ser uma hedonista incurável da leitura, o Chartier me seja tão difícil, pois uma só leitura não me basta para me apropriar do texto. É preciso que leia cada parágrafo três vezes, marque, escreva ao lado e depois ainda reeescreva o resumo no computador, quando algumas passagens ficam finalmente esclarecidas - ou eu consigo compreender que não compreendi algo.
Olha aí, Chartier, quem diria, mas você é ponto para as tias Lúcia e Dorinha.
posted by CLIO ZINHA |
1:27 PM
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